NOVO Episódio 32 A antropofagia 02.03.2025
1 Episódio 32 – A antropofagia 2 Olá, no episódio de hoje vamos explorar um tema fascinante e complexo: 3 os relatos dos missionários sobre a antropofagia entre os Guarani. 4 Antonio, diga para nós qual o significado da antropofagia! Ela tem o mesmo 5 sentido de canibalismo? 6 Olá, Marisa! Esse é um tema que vem chamando a atenção do ocidente desde 7 a chegada dos colonizadores e há muita confusão com relação a ele. Mas, a 8 primeira coisa que eu preciso fazer é, de fato, diferenciar a antropofagia de 9 canibalismo. A antropofagia é o consumo de carne humana realizado por motivos 10 rituais, espirituais, ao passo que canibalismo é o consumo por motivos de dieta 11 alimentar. No caso guarani, ela aconteceria para absorver as virtudes de um 12 inimigo ou para neutralizar seu poder. 13 Antonio, o que os missionários falam dessa prática ancestral indígena? 14 Eles não estão exagerando quando dizem que os antigos Guarani eram 15 antropófagos? 16 Marisa, se formos analisar os relatos feitos por missionários e por viajantes 17 coloniais, veremos que eles são inúmeros e muito parecidos entre si. Mas, 18 vamos nos restringir somente aos relatos dos jesuítas, a começar pelo que foi 19 feito pelo padre Montoya. Dirá ele que, após a morte do prisioneiro, as mães 20 tomavam uma parte cozida do corpo do morto ou tocavam nele e com isso 21 davam nome aos seus filhos. Sobre o ritual de nominação, trataremos no 22 próximo episódio. Quer dizer, aqui já temos uma primeira explicação para a 23 antropofagia. O segundo elemento que aparece é que a pessoa a ser consumida 24 era um guerreiro, possivelmente de um grupo rival, e não qualquer pessoa. Quer 25 dizer, há o motivo ritual e também o de vingança aqui reunidos. Há também o 26 registro da prática de antropofagia com a finalidade de amedrontar os cristãos, 27 assim como para festejar algum momento considerado importante. Por exemplo, 28 o mesmo padre Montoya registrou que um mestre tradicional guarani de nome 29 Guiraberá, quando construía alguma casa ou fazia alguma obra, para presentear 30 os trabalhadores, fazia trazer o mais gordo prisioneiro e com sua carne fazia 31 grande festa. Agora, dada a grande quantidade de povos que falavam a língua 32 guarani, dizer que todos eles eram antropófagos, não é o que a documentação 33 histórica possibilita concluir. 34 Existe algum registro de como acontecia o ritual antropofágico? 35 Sim, Marisa! Vou apresentar o registro feito pelo historiador da Companhia de 36 Jesus, padre Nicolas Del Techo. Sem sombra de dúvidas que ele se refere ao 37 ato de forma extremamente negativa e reprovável. Assim escreveu ele: “Os 38 guarani antropófagos levavam para sua aldeia os cativos que faziam na guerra 39 e ali os alimentavam com todo tipo de manjares apetitosos para que, uma vez 40 engordados, fossem devorados. Até que isso acontecesse, nada lhes era 41 negado. Na véspera do sacrifício, os principais do povo convocavam os 42 habitantes dos lugares próximos, e todos saíam em procissão: à frente iam 43 muitos homens armados e mulheres; uma donzela, adornada com plumas e 44 véus, levava em uma bandeja a macana, cruel instrumento de madeira, e outra, 45 vestida de maneira semelhante, carregava a coroa destinada à vítima. As 46 mulheres mais robustas conduziam os cativos, amarrados pela cintura com 47 cordas frouxas, de modo que mantivessem os braços livres e pudessem atirar 48 paus e pedras à vontade contra os circunstantes. Quando algum destes era 49 ferido, todo o povo celebrava com aplausos e gritos o vigor e a destreza dos 50 prisioneiros. Terminada a procissão, os guarani passavam a noite em danças 51 barulhentas e bebedeiras; os cativos eram fartamente alimentados com iguarias 52 e bebidas espirituosas. No dia seguinte, ao amanhecer, eram conduzidos da 53 mesma forma ao local onde, repetidas as cenas da tarde anterior, um cacique 54 desferia golpes de macana sobre as vítimas, que estavam coroadas e vestidas 55 com trajes ricos; depois, os homens presentes as feriam, adotando novos nomes 56 em memória da festa. Até as crianças eram obrigadas por suas mães a golpear 57 com as mãos os corpos palpitantes. Quando as vítimas finalmente expiravam, a 58 multidão ria descontroladamente, entregava-se à dança e preparava o horrível 59 banquete. O cadáver, cortado em pedaços, era cozido em grandes panelas e 60 depois consumido, com alguns restos enviados às aldeias vizinhas. Tal 61 crueldade – dirá o padre - era considerada por aqueles bárbaros como uma das 62 mortes mais gloriosas, razão pela qual os cativos, mesmo que pudessem, 63 raramente fugiam das prisões. Foi com essas cerimônias selvagens que deram 64 fim ao sacristão do Padre Antônio Ruiz”. 65 E como os europeus, principalmente os jesuítas, reagiram ao se deparar 66 com essa prática? 67 Naturalmente, a reação europeia foi de choque e horror. Os missionários 68 jesuítas, por exemplo, viam a antropofagia como um sinal de "falta de 69 humanidade", de ferocidade e de selvageria dos indígenas. Isso reforçava a 70 visão eurocêntrica de que os indígenas precisavam ser “civilizados” e que o 71 trabalho dos jesuítas era indispensável para isso. Centralmente, a antropofagia 72 foi usada como justificativa para a colonização e para a imposição da religião 73 cristã. Não preciso enfatizar que os missionários proibiram de pronto a 74 antropofagia e que passaram a combater os líderes religiosos guarani desde a 75 chegada em solo americano. 76 Antonio, os povos Guarani-falantes do presente reconhecem que seus 77 antepassados praticava a antropofagia? 78 Marisa, nessas três décadas de contato com os povos indígenas não encontrei 79 nenhum relato de antropofagia entre eles. Inclusive, muitos me falaram que essa 80 história de antropofagia foi obra dos missionários para que justificassem a sua 81 ação entre eles. Pelo sim e pelo não, o que posso dizer é que o tema continua 82 complexo e cheio de mistérios. 83 Espero que tenhas gostado do assunto tratado nesse episódio. Até o próximo! 84 Aguyjevete! Obrigado!
Comentários
Comentário enviado com sucesso!