EPISÓDIO 35 – Vestindo os indígenas 23.03.2025
EPISÓDIO 35 – Vestindo os indígenas 2 Hoje nós vamos conversar sobre a preocupação dos missionários em 3 vestir os indígenas cristão. Antonio, quais os motivos para tanta 4 preocupação por parte deles? 5 Para os missionários, dado pensarem que o corpo humano e, principalmente a 6 sexualidade, se não regrada, atrapalhava a salvação da alma, vestir os indígenas 7 era uma primeira condição para torna-los cristãos. Aliás, a nudez era associada 8 à animalidade e era, ao lado da poligamia, os primeiros impedimentos para 9 assumir a vida cristã. Nesse espírito, já na primeira instrução do padre Torres 10 para as missões do Guairá, de 1609, havia orientação expressa para que os 11 missionários, no devido tempo, encontrassem um modo de incentivar os 12 indígenas a se dedicarem a fazer suas roças, a tecer, a plantar semente de 13 algodão para que não lhes faltassem vestimentas. Em 1610, o mesmo padre 14 Torres, reforçou a orientação, agora dirigindo-a para todas as missões jesuíticas, 15 a fim de que os missionários ajudassem e orientassem os indígenas para que 16 fizessem roças de milho, mandioca, batatas e outros alimentos, e de algodão 17 para que se vestissem e que, para isso, providenciassem bois. Mas, resumindo, 18 eu diria que a primeira preocupação dos missionários era moral, diretamente 19 ligada à necessária decência corporal que os cristão deveriam manter para 20 alcançar a vida social e também a salvação da alma. 21 Mas, os guarani viviam de fato sem roupa? 22 Primeiramente, há que se dizer que os povos indígenas já conheciam e usavam 23 o algodão antes da chegada dos europeus. Em 1633, o padre Diego Ferrer dirá 24 que os Itatin, parcialidade guarani, tanto homens quanto mulheres, usavam 25 vestimentas de algodão com listas muito vistosas de várias cores. Da mesma 26 forma, na região de Assunção, na chegada dos europeus, registraram que 27 homens e mulheres andavam comumente nus, embora plantassem algodão e 28 fizessem suas vestimentas. Na redução dos Santos Mártires de Caaró, conforme 29 registro de 1635, um dos tipos de cama utilizados era a rede, tecida com algodão 30 ou com fibras de urtiga. Mesmo que a rede não seja um item de vestuário, é 31 possível sabermos, pelo relato, que tradicionalmente os Guarani utilizavam 32 também a fibra de urtiga para tecer objetos. Há outras fontes produzidas pelos 33 próprios missionários que mostram o uso também das fibras do caraguatá, não 34 se sabe se para produzir roupas ou outros objetos, como redes, tal é o que 35 identificamos nos registros linguísticos feitos pelo padre Antonio Ruiz de 36 Montoya na obra Tesoro de la Lengua Guarani. Certamente que, nos períodos 37 de inverno, os indígenas, para se proteger do frio, além de usarem do fogo, 38 também utilizavam de algum agasalho, fosse de couro, algodão ou de outra fibra 39 de caraguatá ou urtiga ou de outros vegetais. 40 E quando eles chegam à redução, como os padres reagiram à nudez 41 indígena? 42 Primeiramente, é preciso dizer que eles ficavam escandalizados com a nudez 43 indígena e, por isso buscaram construir neles primeiramente o sentimento de 44 vergonha, embora nem todos os povos tidos como Guarani tivessem a mesma 45 cultura corporal. Por exemplo, o padre Cláudio Ruyer escreveu, em 1627, que 46 na Redução de Santa Maria do Iguaçu, o costume dos indígenas do lugar era 47 andar comumente nus, embora os homens, a partir dos dez ou doze anos, 48 cobrissem as genitálias com algumas plumas de várias cores, entrelaçadas. Já 49 as mulheres andariam totalmente nuas, mas que já começavam a sentir 50 vergonha disso, e todos procuravam se vestir. Para vestir os meninos e meninas, 51 os padres iniciavam a fabricação de um tear e o cultivo de algodão, mesmo que 52 tivessem recebido de Santa Fé dezesseis arrobas de lã, com as quais se poderia 53 remediar boa parte do problema. Há que se dizer que, mesmo que os 54 missionários recebessem alguma ‘esmola real’ e ajuda das reduções mais 55 antigas, era necessário plantar algodão ou criar ovelhas, fiar e tecer as roupas 56 para que pudessem vestir populações bastante grandes, e isso demandava 57 algum tempo. 58 Sobre a Redução de San Ignacio do Paraná, os missionários registraram que, 59 em 1635, o temporal e o espiritual estavam bem encaminhados porque os indígenas, 60 por estarem com os Padres há mais tempo e pela continuidade de tantos anos de ensino 61 e doutrina, já iam se tornando mais capazes para uma coisa e outra, embora os mais 62 velhos, que já haviam criado, entre aspas, calos na nudez, pouco se importassem em 63 andar nus. Mas, nas novas reduções, era preciso o plantio do algodão, a sua colheita, 64 fiação e transformação em tecido. Nos primeiros invernos isso era um grande problema, 65 pois junto da questão moral havia a necessidade de proteger o corpo do frio. Esse foi 66 um sério problema na redução de São Nicolau do Piratini, no inverno de 1635, pois os 67 indígenas não possuíam roupas e, sentindo muito frio, não davam conta de trabalhar na 68 construção das casas, como indica o registro missionário na sua Carta Ânua. 69 Estabelecidas as reduções, como passou a ser a vestimenta dos 70 indígenas? 71 O padre José Cardiel registrou com detalhes a roupa comumente utilizada nos 72 povoados missioneiros: “Todos os indígenas são alfaiates para si mesmos. E 73 para os ornamentos da Igreja, trajes de gala dos membros do cabildo e dos 74 oficiais militares, os sacristães desempenham essa função. E para o calçado 75 desses, há sapateiros. Para si mesmos, precisam de pouca alfaiataria, porque, 76 sendo uma terra quente, e apenas nos meses de junho e julho fazendo algum 77 frio, usam pouca roupa e nada ajustada. [Evidentemente que se o padre 78 comparava o inverno Europeu com o dessa região americana, o frio daqui era 79 muito menor do que o de lá! Mas, segue o relato...] Não vestem mais que uma 80 camisa, um gibão colorido ou branco de algodão, calções e um poncho – no 81 inverno, de lã, e no verão, que dura quase o ano todo, de algodão. O poncho é 82 uma peça semelhante a uma toalha de mesa, de duas varas e meia de 83 comprimento e duas de largura, com uma abertura no meio para passar a 84 cabeça; e serve-lhes como capa. Para a cabeça, costumam usar algum gorro, e 85 aqueles que têm mais recursos, chapéu ou monteira. Não usam meias nem 86 sapatos... Alguns poucos usam meias ou polainas, mas geralmente as deixam 87 caídas ou sem amarrar. Quanto aos sapatos, por mais que os exortemos, 88 especialmente quando trabalham no mato entre espinhos, não há como 89 convencê-los a usá-los. Apenas em suas festividades e funções públicas, 90 quando estão de gala, os principais os utilizam como parte do seu traje.” 91 Espero que tenhas gostado do assunto tratado nesse episódio. Até o próximo. 92 Aguyjevete. Obrigado!
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