Episódio 30 – Aspectos da cosmologia ancestral guarani 16.02.2025
Episódio 30 – Aspectos da cosmologia ancestral guarani Continuamos no episódio de hoje com o estudo sobre a cultura ancestral Guarani. Antonio, sobre que aspecto trataremos? Olá Marisa! Tomando como pontapé inicial o que o padre Antonio Ruiz de Montoya escreveu no famoso Capítulo X do livro Conquista Espiritual, hoje nos debruçaremos sobre alguns aspectos da cosmologia guarani e como isso se desdobra em termos de suas origens míticas. Quer dizer, então, que assim como os cristãos acreditam na história bíblica da criação, os Guarani possuem a sua história própria da criação do mundo? Sem dúvida, Marisa! E digo mais, é uma história riquíssima, da qual é possível pensar num panteão de seres divinos bastante complexo. Mas, vamos ao que escreveu o padre Montoya sobre isso: “Chegaram os guarani ao conhecimento de que havia Deus e ainda, em certo modo, de nele haver unidade, ou que era um só Deus. Colige-se tal do nome que lhe deram, que é "tupán", do qual a primeira sílaba "tu" expressa admiração; a segunda, "pán?", importa em interrogação e assim corresponde ao vocábulo hebraico "manhun", que quer dizer ‘o que é isso’, no singular.” Ora, buscando uma aproximação com o cristianismo, Montoya faz um malabarismo teológico para dizer que o herói civilizador Tupã é na verdade o Deus cristão. Hoje sabemos que Tupã, aquele que se manifestava através do trovão, é um dos pais ancestrais guarani, mas nunca o primeiro e principal, pois havia outros pais anteriores a ele. Mesmo que sejam identificados por nomes diferentes pelas parcialidades Guarani, o primeiro grande pai da humanidade seria Nhanderuvusu. Mas, vamos seguir no relato de Montoya! Assim como outros jesuítas, Montoya acreditava que o apóstolo São Tomé teria chegado até a América e deixado aí raízes do cristianismo, dentre elas uma centelha de aproximação com o catolicismo. “Nunca tiveram eles ídolos, embora o demônio já lhes estava impondo a ideia de venerarem ·os ossos de alguns índios, que em vida haviam sido magos famosos, como adiante se dirá. Nunca fizeram sacrifícios ao verdadeiro Deus, nem disso tiveram mais do que um simples conhecimento. Tenho para mim que somente isto lhes sobrou da .pregação do Apóstolo São Tomé, que, como veremos, anunciou-lhes os mistérios divinos.” Embora muitos missionários buscassem as pegadas do apóstolo no solo americano, é pouco provável que ele tenha estado por aqui! Antonio, vamos conversar um pouco sobre a cosmologia guarani e o seu panteão divino? Sem problemas, Marisa! Embora não seja intenção nossa passar em revista a rica mitologia guarani, vou me ater na escrita do padre Montoya como porta de entrada ao assunto: “Tinham eles por doutrina muito certa de que no céu haja um tigre ou cachorro muito grande, que, em certos fatos de raiva, devora a lua e o sol. É o que nós chamamos de eclipses. Quando estes ocorriam, mostravam eles sentimento, isto é, aflição e admiração.” Mesmo que a intenção de Montoya fosse demonstrar a falta de conhecimentos dos Guarani sobre a dinâmica dos astros, ele toca num ponto central para esses povos, tanto do passado quanto do presente, que é o mito dos gêmeos. Como assim, Antonio! Explique-se melhor! Marisa, ao longo de mais de 4 séculos foram recolhidas diversas versões desse mito. E eu quero te convidar a conhecer uma versão coletada por Eliel Benites no século XXI, na Aldeia Tey’ikue, de Caarapó, Mato Grosso do Sul, para entender o que escreveu Montoya em 1639. Diz a história de agora que no início dos tempos o Sol (Kuarahy) e Jasy (o Lua), sim na cosmologia Guarani sol e lua são do gênero masculino, andavam na terra. O Sol era mais velho que Lua. Mas, Kuarahy e Jacy, quando sua mãe estava gestante deles, conversavam entre si na sua barriga. Num dia, quando viajavam para encontrar o seu pai, Ñaneramói, o Sol pediu para a mãe uma flor muito bonita que estava perto da estrada, mas a mãe não a pegou e lhe disse que primeiro precisava nascer para ter as coisas. Os irmãos ficaram, então, chateados e, por isso, o Sol mostrou um caminho perigoso para a mãe que levava para a aldeia do Jagua Jari, a onça primitiva. Chegando na aldeia das onças, Jagua Jari capturou a mãe e a devorou, e quando a estava devorando encontrou as duas crianças ainda vivas. Eles foram criados como guachos na casa das onças. Ambos tinham muita sabedoria (Arandu) e ficaram mais espertos do que a onça. Mas conseguiram fugir daquela casa e souberam de toda a história pelo papagaio, o Guyrá Ñe’engatu, o pássaro das boas palavras. Então, eles resolveram se vingar da onça e arquitetaram um plano para isso. O Sol orientou o lua a inventar uma história de que atrás de um rio havia muita fruta de guavira e as onças deviam ir coletar porque eram doces e gostosas. Quando estavam no meio da ponte, o rio alargou e se transformou no rio Paraná. Jasy então chacoalhou a ponte e todos caíram no rio e se transformaram em monstros aquáticos quando os irmãos tocaram o seu mbaracá, instrumento musical feito de cabaça, porongo, menos uma que estava gestante e não caiu da ponte, pulando na barranca do rio, sendo transformada na onça terrestre que conhecemos. Depois do acontecido, os irmãos saíram para reencontrar o pai e, no caminho, criaram muitas coisas, como os ventos, as florestas, as águas, os diferentes tipos de animais, os cantos dos pássaros e tudo o mais que existe. Depois disso o Sol foi para o céu para nos iluminar, aquecer e trazer sempre o novo dia. O Lua também foi para o céu para iluminar a noite. Ora, os Guarani do relato de Montoya possuíam uma explicação mítica para os eclipses e a ligavam à ação da onça mítica que voltava a atacar os irmãos. Ademais, por essa versão mítica, não é o Deus trazido pelos missionários que cria o mundo, mas o Pa’i Kuará, o Sol. Por isso é que as casas rituais do presente possuem a porta principal voltada para o leste e muitos cantos-dança são direcionados a ele. Espero que tenhas gostado do assunto tratado nesse episódio. Até o próximo. Aguyjevete. Obrigado!
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