Episódio 34 – O batismo nas missões jesuíticas 16.03.2025
1 Episódio 34 – O batismo nas missões jesuíticas 2 Antonio, estamos, a cada episódio, aprofundando o estudo sobre aspectos 3 das missões jesuíticas juntos aos povos indígenas. Qual o assunto do 4 episódio de hoje? 5 Marisa, vimos no episódio passado sobre os rituais de nominação tradicional dos 6 Guarani. Hoje veremos sobre como o ato de dar nome às pessoas mudou com 7 a implantação dos povoados missioneiros e a administração neles do batismo 8 cristão. Na verdade, em aceitando viver no povoado, o passaporte para granjear 9 o respeito do missionário e usufruir da redução era o batismo. 10 Quer dizer que, para entrar na redução era preciso ser antes batizado? 11 Não é o que a documentação missionária indica! Para ingressar na redução era 12 preciso querer estar lá, embora houvesse casos em que prisioneiros de guerra 13 eram inseridos forçadamente nos povoados missioneiros, como vimos noutro 14 episódio. Mas, via de regra, estando ou não na redução, o tempo para que a 15 pessoa fosse batizada dependia da situação em que se encontrava. Se o 16 candidato ou candidata ao batismo fosse uma pessoa adulta, era necessário um 17 tempo de catequese para que se tornasse apta para tanto, período em que ela 18 recebia os rudimentos da fé e aprendia as orações cristãs. O tempo dispensado 19 nesse processo variava de acordo com o ritmo de aprendizagem do neófito e do 20 abandono de impedimentos que quiçá tivesse. Um dos impedimentos para 21 receber o batismo era justamente a poligamia, outro a nudez. Agora, se estivesse 22 em situação de risco de morte, bastava aceitar a profissão de fé e assim recebia 23 o sacramento. Os cristãos da época acreditavam que somente os batizados 24 receberiam a salvação da alma. Se criança, o tempo era menor e, em caso de 25 doença, era administrado com toda a pressa possível. 26 Quer dizer então que não bastava o Guarani querer o batismo para recebe- 27 lo? 28 Exatamente, ele precisava mostrar atitudes que o tornasse, aos olhos dos 29 jesuítas, merecedor do batismo. Escuta só o que os missionários deixaram 30 registrado sobre isso: “Pedem com muito afeto para serem batizados e, como 31 sabem que não o serão se não souberem as orações, apressam-se muito para 32 aprendê-las, rezando em suas casas de manhã e à tarde e até durante o dia em 33 suas roças e pelo caminho, quando vão a elas. E, se o marido ou a mulher não 34 sabe, ensinam-se mutuamente para serem batizados juntos. E, para se 35 prepararem melhor, mesmo sem serem avisados, afastam-se de seus vícios e 36 pecados, deixando suas concubinas. Os feiticeiros revelam-se uns aos outros, 37 detestando todos a má vida que levaram no passado. E, se por acaso algum 38 deles se desvia e volta a exercer o ofício, tem tantos acusadores quantos o veem 39 ou ficam sabendo”. Quer dizer, o desejo do batismo acabava criando todo um 40 movimento no povoado que o missionário acha positivo, de modo que atrasar 41 dificultar o acesso a ele é uma forma de atingir outros fins! São muitos os casos 42 semelhantes a esse registrados pelos jesuítas! 43 Suponho que problemas como esse eram mais comuns no início da 44 implantação dos povoados! 45 De fato, Marisa. Com o passar do tempo e com a consolidação dos povoados 46 missioneiros, exceto quando chegam novas pessoas, a administração do 47 batismo, embora solene, passou a ser ato corriqueiro no seu cotidiano. O padre 48 Cardiel nos informa como aconteciam os batizados nos povoados missioneiro: 49 “Os Batismos são realizados com solenidade aos domingos. Há povoados onde, 50 a cada domingo, acontecem 16 ou 20 Batismos solenes: realizam-se às duas ou 51 três da tarde, sendo uma cerimônia bastante longa. Para este sacramento, 52 existem em todos os povoados vasos de prata muito preciosos, e o batistério 53 está ricamente decorado com dourados e pinturas. O Pároco e o Companheiro 54 se revezam semanalmente nesses ministérios”. 55 Embora muitos de fato pedissem o batismo, havia aqueles que se negavam 56 a receber o sacramento, mesmo com a insistência dos missionários. Qual 57 o motivo disso? 58 Marisa, havia duas situações que precisamos considerar nessa questão. A 59 primeira é aquela quando os doentes ou moribundos são batizados e recobram 60 a saúde, principalmente nos momentos de epidemias, quando morria até mais 61 da metade da população do povoado. Nesses casos, não só os missionários, 62 mas também a população em geral creditava a saúde à administração do 63 batismo. O problema acontecia quando as pessoas batizadas morriam e a notícia 64 se espalhava de que o causador da morte era o batismo, de modo que muitos 65 fugiam do batismo ou escondiam os doentes para não receberem a água 66 batismal. Na carta ânua de 1634, por exemplo, os jesuítas registraram: 67 “Escondiam seus filhos ainda com poucos anos de vida de nós e não nos 68 deixavam nem olhá-los e era necessário usar de muitas artimanhas e ardilezas 69 para batizar algum quando estavam doentes e mesmo assim os escondiam”. O 70 padre Montoya vai deixar registrado que esse medo era espalhado 71 principalmente pelos líderes religiosos indígenas, a quem ele chamava de 72 magos, os quais atribuíam a morte ao batismo e assim procuravam afastar os 73 outros indígenas daquele Sacramento. Mas, diversos foram os momentos em 74 que os missionários registraram que muitas pessoas, fossem adultas ou 75 crianças, apenas batizados, ‘eram recolhidas por Deus ao céu’. O medo não era 76 de todo infundado, então! Mas há ainda outra situação, que tem a ver com a 77 consciência de muitos velhos e de líderes religiosos indígenas quanto à 78 importância do nome da cultura ancestral que era transformada em resistência 79 à missionação. Já vimos noutro o caso das cerimônias de desbatismo realizadas 80 por Ñeçu, agora eu quero dar outro exemplo, acontecido após a morte do padre 81 Cristóbal de Mendoza, em 1635, quando 12 líderes religiosos indígenas, 82 acompanhados de 700 pessoas, fizeram um junta para destruir as reduções. Os 83 registros dos missionários indicam que o grupo prometeu consumir 84 ritualisticamente todos aqueles que continuassem apoiando os missionários, 85 que, mesmo já sendo cristãos, não se deixassem batizar por esses xamãs ou 86 não lhes levassem as crianças para tanto. Com isso, queriam fazer os indígenas 87 cristãos abandonar o nome cristão e retomar o nome tradicional. 88 Espero que tenhas gostado do assunto tratado nesse episódio. Até o próximo. 89 Aguyjeteve. Obrigado!
Comentários
Comentário enviado com sucesso!